Os filhos não saem caro – Crónica RV Jornal

Os filhos não saem caro e esta constatação foi reforçada estes dias, quando os meus pequenos pediram muito que fizéssemos uma cabana no quarto de brincar. De imediato, lembrei-lhes, indagando, sobre o paradeiro das tendas que havíamos comprado, muito coloridas e com acessórios interessantes como túneis, redes e janelas aerodinâmicas. A oposição dos dois foi clara e ainda mais imediata, afirmando em uníssono: «Não é dessas! É daquelas feitas com panos, lençóis, toalhas e molas da roupa, como aquela que fizemos uma vez. Lembras-te?»

Essa vez – a vez que me trouxeram à memória – foi em pleno confinamento, precisamente quando foi testada toda a minha criatividade para manter duas crianças dentro de quatro paredes, sem que fosse afetado seu desenvolvimento global. Foi numa altura em que nenhum brinquedo supria as necessidades emocionais dos meus filhos; nenhum jogo era suficiente para estimular as suas capacidades psicomotoras; e, por força das circunstâncias, nenhum recurso tecnológico era uma resposta ajustada às suas necessidades de socialização.

Nessa fase, houve um dia em que contruímos uma dessas cabanas: uma cabana GIGANTE! Coubemos lá todos. Até a avó se atreveu a entrar, fazendo frente à sua claustrofobia. Lembro-me nitidamente de termos passado uma tarde inteira lá dentro a brincar. Brincamos de médicos, de professores, de princesas, de super-heróis, de bateristas e ainda abrimos um restaurante onde eram servidos pratos do outro mundo. Nessa tarde, a cabana já era, às custa do acumulado de coisas que tinha lá dentro, uma verdadeira tenda! O certo é que não foi lá parar um único brinquedo daqueles que comprei com a intenção de os estimular ou alegrar. Nem jogos! Pois, depois de um assalto direto à cozinha, tudo ficou ao serviço do jogo simbólico: os guardanapos foram as compressas dos médicos; a agenda dos números de telefone da avó, escondida no armário, rendeu folhas para brincar às escolas; as toalhas de mesa foram fonte de tecido para o vestido da princesa e para a capa do super-herói; as formas dos bolos, as panelas e as colheres de pau formaram baterias e, como é obvio, na cozinha não faltaram serviços de mesa disponíveis para abrir o restaurante.

Há dias, voltámos a construir uma dessas enormes cabanas com tudo o que havia disponível e salvámos uma tarde de domingo que, atendendo às condições climatéricas, tinha tudo para ser um desastre. Ao vê-los brincar, tão envolvidos e tão focados um no outro, não pude deixar de pensar na superficialidade com que esta sociedade ama e educa as crianças. Uma sociedade onde me incluo, porque também eu fui levada pela corrente do consumismo, comprando o desnecessário e gastando tempo e energia com todo um mundo material que outros defendiam como sendo indispensável e necessário.

Desde a comunicação social, aos casais amigos e conhecidos, gozando de experiência e conhecimento de causa, comentários como «Já tens isto? Já compraste aquilo? Vais precisar disto!» são partilhados como valiosos alertas, como sendo os grandes requisitos dos filhos. Meios alienados com as influências, acabamos por ceder e considerar esses mesmos requisitos como necessidades. Cada vez mais vazios, preenchemos a vida com coisas que só vêm ampliar carências e as reais necessidades das crianças: amor, segurança e liberdade.

Afinal, não são os filhos que saem caro. O que sai caro é ser pai e mãe!

Mas isto só se percebe dentro de uma cabana.

 

– Carina Flor (crónica RV Jornal, fevereiro 2023)