É na Praça da República, em Vizela, que podemos encontrar um dos mais belos carrosséis que alguma vez vi. Aliás, a liberdade que se estende ao longo da Praça trouxe um destaque ainda maior a este arquétipo giratório que se instalou precisamente onde a Praça se estreita e o aconchega bem perto do Jardim Manuel Faria.
O Carrossel da Praça não é novo, não é rápido, nem goza de uma sonora iluminação intermitente, como é hábito encontrar em mecanismos semelhantes. O seu engenho expressa uma tal subtileza artística e um embalo tão delicado e poético que ninguém diria que a palavra Carrossel deriva das palavras «Garosello» (em italiano) e «Carosella» (em espanhol), que significam «pequena batalha». Aliás, diz-se que o «Carrossel» teve a sua origem em máquinas antigas, a partir das quais os cavaleiros realizavam exercícios de preparação para combates. É exatamente neste sentido de luta e nesta herança trazida dos combates de outrora que residem as mais intrigantes emoções que este Carrossel faz emergir de cada um de nós.
O que eu sinto quando fico a contemplar este Carrossel do lado de fora, observando o sorriso de pequenos e graúdos, embalados num ritmo lento e irregular, sem manifestarem qualquer ansiedade ou impaciência, lembra-me uma real paragem no tempo, onde podemos misturar todas as épocas, todas as pessoas e todas as emoções. Nesta atmosfera de enredo que nos enfeitiça, perde-se, entre o seu movimento cíclico, a vontade frenética de se querer ir a algum lugar e rendemo-nos à beleza dos cavalos e das carruagens aprisionadas que nos vêm recordar do quão inútil é o confronto.
O Carrossel da Praça é o mais valioso cartão de visita nesta Cidade Natal que Vizela nos oferece. Eu espero que ele permaneça até ao Ano Novo, para que vá espalhando magia pelos dias frios e beliscando os mais alienados, enquanto entoa a mais importantes mensagens de Natal que se ouvem apenas a partir do coração.
Quando eu entrei no Carrossel da Praça, acompanhada dos meus filhos, tive a certeza absoluta de que a minha luta tinha terminado. Que os confrontos que se alimentam à minha volta são demasiado pequenos para a imensidão da minha verdade. Que nenhum combate tem fundamento quando estamos no meio de dois cavalos embalados pelo sorriso genuíno e pela vulnerabilidade de duas crianças.
Eu não sei se o tempo parou… Mas, naquele momento, ali, onde a Praça se estreita, o meu coração girou em torno do maior desejo para este quase fim de ano:
Que a minha vida gire como gira um Carrossel antigo, num embalo sem tempo, onde nada existe para ser disputado, onde todos cabem, onde ninguém vence e todos renascem de um passado sepultado.
– Carina Flor (Crónicas RV Jornal, dezembro 2022)