Vivemos numa época em que qualquer pessoa se sente no direito de partilhar uma opinião sobre tudo, até mesmo acerca do que não conhecem. Vivemos, inclusive, na época do absurdo de se ter uma opinião “enquanto isto” e uma outra “enquanto aquilo”.
Eu não sou capaz de construir uma opinião enquanto professora, outra diferente enquanto mãe e uma outra enquanto esposa. Isto deixa de ser uma opinião e passa a ser uma conveniência. Eu só posso ter uma única opinião, a qual contará com a influência de todas as vivências e experiências que vou tendo enquanto professora, mãe, esposa e todas as personas que vou construindo ao longo da vida. E, no que respeita ao estado atual do mundo, nomeadamente às guerras, eu não sei, nem consigo opinar, enquanto não resolver as minhas próprias batalhas internas, para então poder construir uma opinião verdadeira e fundamentada.
No que respeita às guerras, eu só sei que, muito antes de se materializarem no mundo, todas elas começam dentro de nós! E estas guerras internas deveriam ser as primeiras a serem analisadas para que uma eventual visão individual, informada e consciente possa gerar uma opinião capaz de contagiar o mundo e impulsionar uma mudança coletiva. Mas continuamos a ser cúmplices dos grandes absurdos e a gerar o caos em nós mesmos, quando:
Temos empregos que nos ocupam mais de oito horas do nosso dia, reclamamos da falta de tempo para estar com os filhos e ainda os colocamos nas mais diversas atividades extracurriculares. Temos crianças a serem medicadas para poderem “suportar” os transtornos e a instabilidade dos adultos que as rodeiam. Temos crianças diagnosticadas com perturbação de hiperatividade e défice de atenção quando estas são obrigadas a permanecerem quietas e fechadas em casas e salas de aula a maior parte das suas horas e dos seus dias. Temos crianças a frequentarem terapia da fala, quando não dispensamos algumas horas diárias para conversar com elas e assim promovermos essa aprendizagem de modo espontâneo, integrado e natural. Penalizamos as crianças pelo traço irregular e pela caligrafia ilegível, quando temos escolas, métodos de ensino e atividades quotidianas completamente digitais, sem espaço para as tarefas manuais. Reclamamos dos adolescentes e jovens pouco proativos, quando, ao logo de anos de educação e de escolarização, os impedimos de terem uma voz, de questionarem, de tomarem decisões e de fazerem pelas próprias mãos. Temos recém-licenciados com conhecimentos completamente estéreis, por terem sido bombardeados com teorias que nem sequer puderam contestar. Temos pais, educadores e cuidadores que se distanciam, cada vez mais, dos limites da autoridade, quer por defeito, quer por excesso. Temos adultos a investirem tudo nos seus empregos e a ignoram as necessidades básicas do seu próprio círculo familiar. Temos pessoas que investem tempo e dinheiro em retiros espirituais, mas não reservam trinta minutos do seu dia para uma caminhada ou outro ritual em família.
Temos uma geração completamente à deriva das suas próprias emoções, incessantemente em busca de uma receita que silencie as suas guerras interiores. Mas, talvez seja exatamente este modo cobarde de nos calarmos que alimenta o caos que, a seu tempo, a natureza empurra para fora de cada um de nós, em direção ao mundo.
Talvez…
Não sei…
Não tenho opinião.
– Carina Flor (Crónicas Jornal RV, novembro 2023)