Por esta altura, as noites mais curtas e frescas convidam a um passeio pelas emoções, como quem navega pelos caminhos que convergem ao rio. É o momento em que todos se rendem ao movimento das águas internas, como se despedem as folhas das árvores, honrando uma renovação ou um ponto de viragem. Consciente, ou não, todo o Homem procura a nitidez do seu reflexo na superfície cristalina dos lagos. Esta busca quase narcísica é um noivado entre espelhos à procura da beleza eterna, onde o rosto e a emoção se fundem sem apego, sem compromisso. Nestas noites em que já se procura o aconchego dos lençóis, preenchemos as insónias com mergulhos profundos dentro de nós, ainda que as águas fiquem turvas, ainda que beleza descoberta possa ter a cor e a inércia dos pântanos. As folhas vão beijar o chão, queiramos ou não. O rio irá manter o seu curso, seja qual for a rota do vento. E a beleza, essa, para ser perene, terá que submergir.
Só há uma forma de alcançar a verdadeira beleza, o que torna inútil todo e qualquer elixir da juventude vendido pelos serviços estéticos e espaços comerciais. Só preserva a beleza quem tem o amor escrito nas linhas do rosto e quem, nas suas expressões, espelha o mapa da liberdade. Como a beleza da senhora Deolinda das Portas, da rua do Lamarão, em Santa Eulália; aquele lugar onde eu vivi até à adolescência e onde, agora sem os campos vastos e verdejantes outrora cultivados pelo seu marido já ido (o senhor Manuel, que acordava a madrugava com os seus olhos brilhantes), ainda vive a senhora Deolinda (a Lindinha, para o meu irmão do meio) que, apesar dos seus quase 93 anos, tem o rosto mais bonito do mundo! Não é exagero. O seu rosto é mesmo o mais belo e as suas expressões faciais falam de rituais amor e de bondade. Sempre que revisito aquele lugar, aquela casa, sou convidada a mergulhar no significado mais puro da vida. Quando entro naquela cozinha, onde ainda se come na longa mesa retangular de madeira, que exige a colaboração de todos para levar o pão até à outra ponta, e os dois bancos madeira, daqueles compridos que obrigam toda a gente a levantar-se quando alguém quer sair da mesa, percebo o que é isto de se ser humano. São estas refeições verdadeiramente partilhadas, naquela cozinha humilde que se agiganta aos olhos de quem entra, que permitem o repouso das águas turvas e que deixam ver com clareza a nossa beleza refletida. São as memórias felizes da Lindinha e do senhor Manuel que, indiferentes à idade, namoravam sem qualquer constrangimento, que suavizam as rugas do mundo e daqueles que se vão fechando do lado de fora das portas da vulnerabilidade. A porta de entrada desta casa abre-se sempre para a beleza eterna do rosto da Lindinha…e para a beleza do mundo inteiro dentro dela, cultivando o desapego.
As folhas vão beijar o chão, queiramos ou não. O rio irá manter o seu curso, seja qual for a rota do vento. Já não importa o que ficou por vir. É tempo de deixar ir, de mergulhar, de agitar as águas e aceitar que nem tudo é perene… que nem tudo fica. Só envelhece, quem de si abdica!
– Carina Flor (Crónicas Jornal RV, setembro 2022)