Carta à mãe do autista

Querida mãe,

Nesta época natalícia, em que tudo se enche de cor e alegria, quero dizer-te que podes gritar.

Podes até pincelar tudo de negro, se for a tua verdadeira vontade.

Que podes esconder o teu rosto cansado sob os lenções de flanela e atrasar-te para a ceia de Natal.

Quero dizer-te que compreendo a tua irritabilidade e fúria quando todos dormem.

Quero dizer-te que sei para onde quiseste fugir nos fins de semana que te levaram à exaustão.

Quero ainda lembrar-te que não há nada mais injusto do que romantizar o autismo e propagandear a imagem da mãe heroína de capa reluzente, capaz de enfrentar a tempestade de sorriso estampado no rosto.

(Uma mãe que se vê obrigada a proferir uma gratidão sem conseguir encontrar motivo, nem propósito…)

Como se ser grato quando o coração sangra?

Como abraçar os dias tumultuosos?

Como nutrir o espírito com um corpo em carência, tantas vezes desnutrido do que lhe é digno?

Quero dizer-te que podes não ser grata.

Que podes insultar o destino e lamentar-te todos os dias.

Podes até tirar essa capa reluzente que te pesa tanto e vitimizar-te em frente ao espelho.

Mais ninguém vê o dilatar das tuas pupilas quando o sol nasce e tu ainda nem sequer dormiste.

Ninguém sente as tuas arritmias cardíacas quando as crises chegam sem aviso, tu tens que parar e, mesmo assim, o mundo continua a seguir o seu curso.

Ninguém sabe o quanto tu tens que te apressar para alcançar o mundo, com outro mundo nas costas.

Quero dizer-te que tens toda a legitimidade para seres densa e insuportável.

Quero dizer-te que lamento muito não poder ajudar-te nas interrupções letivas, quando, depois de tanto cansaço, só te resta mais cansaço, a intensidade dos dias e a sobrecarga emocional.

Quero dizer-te que compreendo a tua dor.

Quero que hoje adormeças sem culpa.

E quero que sejas mãe.

Apenas mãe.