Para falar sobre este lugar que se situa entre o querer e o dever, tenho forçosamente que falar da minha mãe. A mulher gigante que se agiganta só pelo simples facto de ser mãe solteira. A lendária “mulher de bata” com que se identificam tantas outras mulheres da sua geração – a matriarca. Muito lúcida e autónoma, eis que se vê, aos 80 anos, sem mobilidade e dependente do outro devido a uma queda. Mas não é sobre suas fraturas e estilhaços que pretendo falar, mas sim sobre a sua resiliência e, sobretudo, sobre a dinâmica familiar que se reorganizou quando a líder que tudo fazia e que de todos cuidava, foi convidada a parar. Talvez as circunstâncias quisessem lembrar que não podemos passar uma vida inteira apenas a dar, pois saber receber é o único impulso para dar. E a vida assim o fez, no meio deste emaranhado de acasos, a matriarca foi forçada a fazer uma pausa na sua roda viva de cuidados ao outro e o milagre aconteceu.
Milagre, para mim, não inclui clarões nem fenómenos inexplicáveis. Milagre, para mim, é o reencontro e o manifestar do que há de mais humano em cada um de nós. Milagre é o convergir do querer ao dever. E foi exatamente assim, nessa dinâmica de amor e cuidado que nós, os três filhos, reorganizámos os nossos dias para ficarmos perto desta mulher que foi sempre o alicerce das nossas vidas. De repente, como nunca havíamos conseguido antes, e sem grandes planos, estivemos todos juntos, em contacto, os três irmãos entrelaçados à volta da mãe, com o objetivo de apoiar, de cuidar e de lembrar que, aconteça o que acontecer, seremos sempre quatro!
Durante anos prevaleceram julgamentos sobre a “qualidade” dos filhos que cresciam sem pai. Todo o comportamento desajustado de um filho oriundo de uma família monoparental era julgado pela “falta de pai”, pela “falta de pulso” ou pela falta de qualquer coisa que se distanciasse do amor. Julgo que minha mãe sentiu, uma vida inteira, o peso destes julgamentos e dos dedos apontados e, talvez por isso, tivesse sido tão exigente com a nossa educação. Mas a sua educação teve como base o amor, a cumplicidade, o orgulho em sermos quatro e, por ter sido o seu colo a sua maior regra e firmeza, hoje, nestas circunstâncias, ela recebeu o resultado de tantos anos de dedicação: o respeito.
Este é o lugar entre o querer e o dever. Este respeito construído e assente nos pilares do amor incondicional. Não um respeitar “porque se teme”, mas um respeitar “porque se ama”. Um respeito que não se reflete no imediato, por ser um respeito que não cede ao pulso. Mas um respeito que perdura com o tempo, que cresce connosco e que se consolida nos extremos da vida.
Somos, incessantemente, uma família unida pelos extremos da vida e, num sem fim de desafios, eis que nos descobrimos e reencontramos entre estes dois lugares de reciprocidade. Entre o querer e o dever está o respeito, a reciprocidade, o compromisso entre o dar e o receber!
E venha o que vier, aconteça o que acontecer, agarrados à sua bata, seremos sempre quatro!
– Carina Flor (Crónicas Jornal RV, maio 2023)