No meu tempo… – Crónica RV Jornal

Li, há pouco, uma notícia que fazia referência a estabelecimentos comerciais em Portugal, nomeadamente na área da restauração, que disponibilizam equipamentos eletrónicos para os miúdos, no sentido de –  cito – «garantir uma experiência mais tranquila, tanto para os pais como para os restantes clientes». Depois de reler este argumento vezes sem conta, não pude deixar de me colocar no lugar da criança e perceber que esta é, para a sociedade atual, aquela “criatura que tem que ficar quieta e calada para não incomodar os demais”. Um cenário simplesmente assustador que, lamentavelmente, corre o risco de acabar por ser normalizado e integrado, como sendo um caminho necessário ou uma consequência que não dará lugar a qualquer protesto.

Recuando até ao início do mês de julho, aproveito para confessar que este ano letivo fui demasiado ambiciosa e que rapidamente me vi refém destes seres invasores, de ecrãs luminosos e interativos, aliciantes pela sua recompensa imediata. Este ano, consciente de que os meus filhos já passam demasiado tempo na escola, decidi que não iriam para o ATL e ficariam comigo em casa, enquanto eu cumpria o meu serviço não letivo, já que este seria maioritariamente realizado a partir de casa. Quando tivesse serviço presencial, levá-los-ia comigo e pronto. Simples.

Mas, não foi… De repente, vi-me atolada de relatórios e outras burocracias, prazos para cumprir, uma casa para “atimar”, uma mãe para assistir, uma cadela para educar e dois “pirralhos” cheios de energia (e fome!) pendurados no meu pescoço. Um cenário perfeito para enlouquecer e ter um surto de irritabilidade ao fim de uma semana. A sorte (ou azar) é que, apesar de não haver PlayStation nem Tablets cá em casa, existem uns telemóveis mais antigos com jogos e ligação Wi-Fi no armário da sala. Um para cada um (ou teria um problema maior!). Em pouco tempo cedi ao tal caminho necessário e à consequência sem direito a protesto e sentei os dois no sofá com as mãozinhas e os olhos entretidos. Em pouco tempo, aquele momento solitário, em que o meu trabalho rendeu como nunca, virou rotina diária. À mesma hora, lá estavam os dois enrolados um no outro, a iniciarem verdadeiras batalhas de discussão por causa de porra nenhuma. Eu não conseguia ler um único documento sem me levantar para mediar conflitos e rapidamente aqueles ecrãs invasores pareciam ser a solução mágica para organizar o caos.

Contudo, o caos nunca fora organizado. Ele apenas migrava para dentro das nossas mentes. Os pequenos paralisados no sofá e eu com uma culpa gigante a crescer dentro do peito. Mas o trabalho rendia. Se rendia!!! Entretanto, lá se escutava a avó dizer: “quando a vossa mãe era pequenina não tinha nada disso e ela deixava-me trabalhar sossegada”. Pois deixava. No meu tempo, crescia-se na rua com muitas crianças. Não tínhamos nada, mas tínhamo-nos uns aos outros e isso era tudo. Nas férias, durante a semana, eu estava com a minha mãe apenas nas refeições e ao deitar. Hoje, vivemos relações de proximidade intensas. Estamos mais próximos, mas, ao mesmo tempo, muito distantes.

No meu tempo, nos restaurantes, por exemplo, não nos davam equipamentos eletrónicos. Ficávamos entretidos a roubar comida do prato ao lado e a brincar debaixo das mesas enquanto nos ameaçavam de gota. Éramos crianças incómodas. Por vezes, voavam chinelos e caía-se mal. As cabeças abriam e os adultos tratavam as feridas entre beijos e ameaças de uma tareia maior. Raramente era tranquilo, mas era uma experiência real e as crianças eram o verdadeiro propósito de cada refeição.

A notícia é assustadora. Mas, o meu mês de julho e a minha culpa foram-se aliviando aos poucos, longe dos ecrãs. Com algumas respirações e aceitações, hoje, consigo escrever esta crónica sem grandes sobressaltos e nem sei onde andam os meus pirralhos. Talvez os encontre caídos no terraço enquanto travam mais uma batalha de irmãos. Não é tranquilo… mas garanto que é real, como no meu tempo!

 

Carina Flor (Crónica RV Jornal, agosto 2024)