Percorri parte deles, no dia da inauguração, quando a noite já se exibia dentro da cidade.
Um sábado à noite em Vizela, já não é o que era. Já não há ruas vazias nem casas cheias. Dos mais novos aos mais velhos, muitos aproveitaram a noite amena para celebrar a casa grande. É que a casa grande é toda ela… a cidade!
Da Ponte Romana, arrancavam casais pouco apressados, pares enamorados e alguns amigos de quatro patas. Apesar dos passos iluminados ao longo da marcha lenta, eu e o Hélder não pudemos dar as mãos. Pois, os nossos olhos estavam desejosos por descobrir Vizela numa perspetiva diferente e o frenesim dos nossos dedos só queria apontar novidades.
Como é bonita a Ponte D. Luís! Nunca a vira tão de perto! E a nova Ponte do Mourisco?! Fez-se janela para o passado, já que, do outro lado, se vê o imponente Castelo, bem como as maravilhosas e antigas casas senhoriais agora restauradas.
Apesar de um sol ausente, a forças das águas do Rio Vizela fez as honras do momento, reluzindo uma suavidade tempestuosa que condizia com a beleza daquele percurso.
Um percurso que se abre no intervalo entre o Mourisco e os limites do gracioso Parque Natural, onde são seduzidos os caminhantes, com árvores centenárias erguidas ao centro de um parque que nos convida a recuar à nossa ancestralidade.
Ninguém prossegue sem se espantar. E quando recomeçam os passadiços, no limiar do espanto, floresce uma nova paisagem ao longo do trilho.
Um trilho que, tanto eu como o Hélder, já havíamos percorrido na nossa infância, quando rompíamos os campos e as propriedades privadas sem receio das consequências. No tempo em que não existiam muros, nem gradeamentos imponentes junto às casas. O tempo em que as crianças desafiavam os perigos ao longo da Ribeira, até chegarem à cascata de Santa Eulália.
Os Passadiços de Vizela são muito mais do que o resultado de uma medida ecológica. São, antes, uma intenção: a de oferecer um novo chão aos que por ali passam e fazer-se memória a cada passo dado.
Ainda não a conheço completa, a nova pele daquele que fora o cenário da minha infância. Mas anseio – como o solo anseia a tranquilidade de um rio – pela chegada à cascata selvagem que é, hoje, um templo sagrado na Natureza plantado, à espera de celebrar a vida.
– Carina Flor (Crónicas Jornal RV, março 2024)