Em agosto, o sol reveste a calçada da cidade, salpicando de dourado os passeios das ruas até aos bancos do Jardim Manuel Faria. Enquanto as famílias agitam, sentadas, as conversas sobre o futuro, as crianças brincam no Coreto, onde são bailarinos e bailarinas, cantores e cantoras, pintores e pintoras, atores, atrizes, músicos, poetas e acrobatas desafiando a gravidade nos bancos e nas escadas daquele palco circular, em frente às esplanadas.
As esplanadas estão lotadas de adultos ansiosos e preocupados com o regresso às aulas dos mais pequenos. Para algumas crianças, prestes a ingressar no primeiro ano escolar, esta será a primeira experiência de crescido, na ótica dos seus pais. Sim, porque para os graúdos mais distraídos o pré-escolar não conta, nem tem o peso da responsabilidade de uma escola que levará os seus filhos até às portas da universidade, onde poderão estudar para serem médicos, enfermeiros, professores, arquitetos ou advogados. Quem sabe, até, economistas de renome, contribuindo para a coletividade!
Fala-se dos vouchers, do material escolar, das ajudas da câmara municipal, da mochila muito cara do ano letivo transato, da professora mal-encarada que ensina muito bem, da outra professora mais atenciosa que mima muito, da comida na cantina e dos horários. Enquanto os graúdos alimentam o monstro da ansiedade dentro deles e dentro dos outros, os mais pequenos continuam a traçar o futuro em cima do Coreto, com músicas, danças, pinceladas de vento e corridas frenéticas, desafiando a paciência das famílias, dos que já chegam aborrecidos e dos que procuram sossego junto ao chafariz.
No final de agosto, o sol continua a percorrer a calçada da cidade, dos passeios até ao Coreto do Jardim, aquele palco iluminado pelos sonhos das crianças que pouco se importam com a chegada de setembro e nem sequer têm tempo para brincar com os monstros gigantes que os adultos carregam no peito e levam para todo o lado.
O sol ainda brilha muito em agosto para prevenir os pais mais distraídos e dizer-lhes, em tons de dourado: se um dia os vossos filhos vierem a ser médicos, enfermeiros, professores, arquitetos, advogados ou até economistas de renome, terá sido à custa dos sonhos traçados e levados muito a sério pelos bailarinos e bailarinas, cantores e cantoras, pintores e pintoras, atores, atrizes, músicos, poetas e acrobatas, no Coreto daquele Jardim.
– Carina Flor (Crónica RV Jornal, agosto 2022)