No mês em que se assinala o Dia do Professor, a 5 de outubro, não posso esquecer os anos em que me transformei nas novas moradas, as pessoas que de repente se fizeram família e as longas viagens pelo nosso Portugal, carregando a bagagem pesada e uma réstia de motivação para esta grande missão que é educar. Recordo, ainda, as intermináveis listas de despesas e os saldos negativos no orçamento logo no início do mês, assim como o meu fracasso na gestão das contas ao longo de tantos anos de contratos, sem qualquer garantia de estabilidade. Recordo, também, os adiamentos que fiz na vida, as ausências nos convívios de amigos e nas reuniões de família, o isolamento cru e frio no final dos dias, quando se fechavam os portões da escola, e as lágrimas que sustive, tantas vezes, nas intermitências das insónias.
Ser professor não é ganha-pão, é missão! Engana-se quem chega à escola somente à procura de sustento, quem chega à sala de aula no papel de visitante e quem chega ao aluno por meio de um mero sistema hierarquizado, distanciando-se dos corações famintos de entendimento.
A escola também é uma casa! O professor também é família! Não descurando o papel e a responsabilidade dos cuidadores, por maior que seja a revolta contra o sistema educativo completamente estéril que se hospedou nas nossas escolas, o professor ainda é o porto seguro e o principal horizonte de oportunidades para muitos alunos que, imersos nas suas crises emocionais e nas injustiças sociais, lá vão escapando ilesos das atrocidades deste mundo.
Por esta altura, no pensamento de alguns que agora me leem, já se processa uma sequência infindável de fundamentos, totalmente válidos, que justificam este “baixar de braços” coletivo que se instalou na educação, nestes últimos anos. Por vezes, também eu dou por mim a roçar a desistência, até que trago à memória, muitas vezes em esforço, os professores que fizeram a diferença na minha vida. No entanto, não posso esquecer a professora primária que, ao saber que eu era oriunda de uma família monoparental, me deixava construir presentes para a mãe, no dia do pai. A diretora de turma do quinto ano que, complacente com a minha extrema timidez (um mutismo seletivo sem diagnóstico), permitia que lhe respondesse sempre por escrito e que lhe fosse falando ao ouvido. A professora de matemática, a estagiária, amável e dotada de uma inteligência incomparável. A professora de técnicas laboratoriais que, apesar de fazer parte do programa curricular, se recusava a dissecar ratos porque amava os animais. Hoje, não me sobram dúvidas: um professor não pode ser só formador; um professor tem que ser, no mínimo, inspirador!
Há dias, uma professora, doente oncológica, faleceu aos 51 anos, no ano em que lhe foi negada a mobilidade por doença, impedindo-a de ficar na sua área de residência, perto de quem dela cuidava. Josefa Marques, apesar de todas as injustiças deste sistema e do preço alto que pagou, cumpriu a sua missão. Que seja sempre lembrada! Que nunca morra o que nos deixou: força e inspiração.
– Carina Flor (Crónicas RV Jornal, outubro 2022)