Vamos falar de poesia! – Crónica RV Jornal

Vamos falar de poesia, antes que o Natal se apague antes do dia vinte e cinco. Vamos falar de poesia, porque eu preciso que me leiam com a lente de um poema quando eu escrevo: “Eu não gosto deste Natal!”

Este Natal parece-me sempre vazio, ano após ano, cada vez mais vago, cheio de nada…

Até ao dia vinte e cinco, o Natal é uma correria, é um desassossego e um desespero. Gente numa azáfama, de cá para lá e de lá para cá, a cumprir o apego, a desafiar o cansaço e a empurrar quase um mês inteiro para os últimos dias do calendário. Que ninguém se engane! Passar um mês inteiro preso ao consumismo é passar à frente os dias mais importantes do ano. Dias que estão na reta final para fazerem parte de um período de desaceleração, de recolha, de reflexão e desapego.

Mas vamos falar de poesia!

Poesia é o lugar onde os vazios se afirmam para poderem ser nada e poderem ser tudo. É no poema que encontramos a explicação das coisas que não podem ser, mas que são, mesmo antes de serem. Eu não posso sequer falar de poesia sem virar alguns sentidos do avesso: ver uma melodia, sentir uma imagem ou escutar um abraço. Não posso falar de poesia sem falar de regresso a casa, de instantes que se unem num verso e que se abrem a um poema sem morada. Morada que nasce do próprio poema que se cria e se decifra.

Mas falta tanta poesia neste Natal! Falta-lhe a direção de um poema refletido nas luzes intermitentes das ruas. Falta-lhe um verso despido e uma palavra que se desnuda aos olhos de quem tem coragem suficiente para parar o carrossel e ser mensageiro real. Mas falta-lhe endereço e código postal.

Vamos, antes, falar de poesia!

Quando eu era criança, escrevia exatamente o que via, escutava e sentia. Umas vezes, palavras pausadas num parágrafo, outras vezes, corridas numa página com relevo. Folhas de papel amarrotadas pelo medo e pelo sobressalto ou vincadas pelo tempo sonhado. Por isso, não posso falar de poesia sem falar de devaneios, de cutículas de emoção e de conclusões visionárias. Não posso falar de poesia sem ouvir tocar a mesma melodia: a da criança ferida e da mulher que já acontecia, quando um verso me escrevia sobre as coisas que eu ainda não via.

Coisas que eu sonhava como já acontecidas. Coisas que ao acontecerem depois me pareciam sempre insuficientes, diminutas e vazias de céu. Como este Natal que atiram contra a vida e exibem, ainda antes de dezembro, nas montras cintilantes e nos corações sujos de purpurinas e promoções. Este Natal continua despido de tudo. Este Natal deixou de ser sonhado, para poder ser comprado. Mas o sonho não se compra. O sonho é um presente emprestado, ano após ano…

Mas vamos falar de poesia!

Porque falar de poesia é falar de sonho, é falar de quimera e de lanterna na noite escura.

Eu sonho mais do que devia (eu sei!). Portanto, continuarei a sonhar com o Homem que interrompe o ciclo do carrossel, sem que o poema me culpabilize. É quase Natal e é-me tão difícil acontecer! Então, eu escrevo em desespero este poema, ou um outro que me concretize.

E, talvez um dia, o Natal não seja mais um poema triste disfarçado de poesia.

 

– Carina Flor (Crónica RV Jornal, dezembro 2023)